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sexta-feira, 22 de abril de 2011

3 A Sombra do Passado




A
gora eu compreendo a razão daquele telefonema de madrugada, que não me acordara, pois tenho insônia desde o incidente da primavera passada.
Ainda é dia lá fora, mas sempre é noite nas paredes do meu quarto, escuras e nuas, a não ser por uma janela que a todo o momento permanece fechada.
A mancha de sangue ainda está no tapete. Hoje ela faz um ano, mas perdeu seu significado há três dias. No dia do Telefonema:
- Alô? – disse eu, nem surpreso, nem expectante.
- Não peço desculpas por ter lhe acordado, pois sei que você não dorme, e isto é por minha causa – disse uma voz familiar que eu não ouvia desde... a última primavera.
Era o Ricardo. Mas como era possível?
Ele estava morto!
Voltei no tempo, ao dia em que tudo aconteceu:

Eu estava voltando para casa depois de mais um dia desinteressante na escola. Notei que a porta da frente não estava trancada. Subi para o quarto, abri a porta e vi, caído sobre o tapete, o corpo inerte de meu irmão, pulsos cortados e a faca ao lado.
Não me assustei, eu apenas compreendi: ele estava desiludido de tudo, do amor, do trabalho, da vida.

- O que você quer? – perguntei calmamente, depois de repelir essas lembranças.
- O motivo pelo qual estou ligando é que tive muito tempo para pensar sobre minhas ações e refletir sobre os meus erros. Agora, eu enxergo que era covarde, apenas apontava os problemas, mas não tinha coragem para enfrentá-los.
Eu estava de pé, no centro do quarto, ouvindo.
- É verdade que apontar os problemas é mais fácil do que dar as soluções – continuou ele. – Vejo que está indo pelos mesmos caminhos errados pelos quais eu fui, entretanto, saiba que sempre há uma solução melhor que a morte, por mais difícil que seja vê-la. Fiz esse esforço para me comunicar porque você precisava saber disso. A minha morte me ajudou a ajudá-lo. Agora me despeço.
- Não espere! – eu estava confuso e nem me dei conta de que estava acontecendo algo que não ocorreu nem quando o Ricardo morreu: eu estava chorando. – Onde você está? Quero lhe ver!
- Estou em um lugar muito melhor agora. Quanto ao nosso encontro, deixe que ocorra pelas mãos do destino. Adeus.
- Não desligue! Por favor! – mas o telefone já estava mudo.
Três dias já se passaram e finalmente eu entendo que, por algum meio que está além da minha compreensão, meu irmão falecido tentou me salvar de mim mesmo.
Agora, o velho tapete não está mais no quarto e a mancha de sangue que representava a insignificância humana foi apagada.
Estou na janela deixando o ar de uma nova primavera entrar; percebi que já é noite.
Vou para a cama me sentindo diferente, como se um peso tivesse sido retirado de minhas costas. Fecho meus olhos...
E durmo.

3 comentários:

  1. Textos tido como fantásticos são realmente difíceis de se escrever, mas estas indo no caminho certo.
    Um texto fantástico precisa de uma revelação muitas vezes inesperada, senti falta um pouco de suspense, mas como disse, estas indo bem nesse tipo d escrita!

    :)

    Tbm escrevo textos fantásticos...quando puderes dá uma olhada estarei a espera!!!! :D

    Até mais!

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  2. O texto está muito bem escrito.
    Primeira vez aqui e gostei...

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  3. "Sempre há uma solução melhor que a morte, por mais difícil que seja vê-la"...
    Certamente a morte não é a melhor escolha para se livrar de um problema, pois há pessoas que se importarão com isso, sempre vai haver uma pessoa que te ame de verdade, que sentirá sua falta, que chorará por você... Não vale a pena desperdiçar a vida por problemas que podem ser resolvidos com o tempo...

    Parabéns pelo texto, faz a gente refletir um pouco.
    http://adasproducoes.blogspot.com/

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